Você viaja

Torres del Paine, no Chile: cada detalhe, uma emoção

Um dos mais famosos parques nacionais da Patagônia, Torres del Paine traduz a crença de que “a conquista mais difícil é também a mais saborosa”

* Texto escrito por Heidi Moriyama, do @sobrenomemochileira

|A ideia

Toda viagem é única por algum motivo. Seja pelo destino paradisíaco, pela companhia escolhida ter correspondido às expectativas, pela comida local deliciosa, pelos passeios surpreenderem… Ou pelos perrengues terem sido “memoráveis”: um voo cancelado, o celular furtado no transporte público, aquela disenteria que parecia não acabar nunca, o banheiro da acomodação que entupiu, e por aí vai.

E existem aquelas viagens que se tornam únicas pelo orgulho que você sentiu ao realizá-las. Ter completado o circuito W do Parque Nacional Torres del Paine, no Chile, foi esse tipo de viagem.

Vista do avião para a Cordilheira dos Andes (Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

Sempre gostei de estar em contato com a natureza. Fosse no quintal de casa, observando os pardais que, vez ou outra, faziam ninho na azaleia e botavam seus ovos, nas vezes em que abria um guarda-chuva e ficava do lado de fora de casa para “sentir” como era estar debaixo de uma tempestade, ou mais esporadicamente quando meus pais acampavam em alguma praia do litoral norte de São Paulo e as minhas únicas preocupações eram passar repelente antes de sair da barraca e tirar a areia do pé antes de entrar nela.

De lá pra cá foram poucas as oportunidades que tive – ou que me propus a ter – para desfrutar da natureza da mesma forma. Em 2018, o ano em que completei 30 anos de idade, talvez por aquela sensação de “estar passando por um marco”, decidi mudar algumas atitudes que eu já considerava prejudiciais, mas que ainda não tinha de fato tentado mudar: guardar menos (se possível, zero) rancor das pessoas, cuidar melhor da minha saúde, dar mais atenção às pessoas que realmente importam (e vice-versa) e buscar o caminho para o que de fato me faz feliz. Alguns dos itens ainda estão em lento desenvolvimento, é verdade, mas o que vale é que, enfim, estão. E outros, digo com muito orgulho, já são tarefas cumpridas.

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

|Companhia

Ao decidir que Torres del Paine seria a próxima viagem que eu gostaria de fazer, logo pensei em quem iria comigo. Minha irmã e alguns dos meus amigos eram as possibilidades. Mas o fato é que ninguém daquela lista poderia me acompanhar na data em que eu conseguiria. A opção viável era ir sozinha. Mas “fazer uma trilha sozinha, dormindo em uma barraca e carregando uma mochilona pesada por 4 dias” seria factível para mim? Eu estaria preparada para aquilo? Coragem eu sabia que tinha…

Comecei então a pesquisar tudo o que aquela “aventura” pedia: primeiro pesquisei por brasileiros que já tinham feito o circuito W de Torres del Paine, vi fotos, vídeos, alternativas. Depois entrei em contato com a Luisa Galiza, do @levenaviagem , que tinha feito parte do circuito W. Ela me garantiu que o parque era seguro mesmo para uma mulher que se dispusesse a fazer a trilha sozinha; os inimigos não seriam seres humanos, mas sim a imprevisibilidade do tempo, a dificuldade do percurso e a quilometragem (quase 76 km, no total).

Com a crença de que eu estava à altura do desafio, comecei a me preparar de fato. Para fazer o circuito W (existe também o circuito O, mais longo, de aproximadamente 10 dias), é necessário calcular quantos quilômetros você andará por dia para reservar onde vai passar cada uma das noites. Pesquisando, vi que a média de tempo que as pessoas levam para fazer o circuito W é de 4 dias e 3 noites, andando uma média de 19 km por dia. Como existem vários campings disponíveis dentro do parque, você pode escolher onde vai ficar.

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

|Acomodações

As acomodações, que incluem os campings e, em alguns pontos também hotéis ou refúgios – locais em que você paga por uma cama apenas, como se fosse um hostel – são administradas por duas empresas privadas (Fantástico Sur e Vertice Patagonia) e pela CONAF (Corporación Nacional Forestal, pertencente ao Ministério da Agricultura do Chile). Falando apenas dos campings, nos que são administrados pelas empresas é preciso pagar para passar a noite (cerca de US$ 10) com direito a uso de um banheiro normal, com chuveiro, vaso sanitário e papel higiênico. Essa é a taxa básica para quem levar tudo por conta, como eu fiz: barraca, saco de dormir, artigos de cozinha (panela, talheres, copo, fogareiro, botijão de gás), comida e mantimentos, entre outros apetrechos.

É possível também alugar as barracas e sacos de dormir dos próprios campings e comprar refeições prontas (porém saiba que os preços são bem altos – e não é para menos: o parque fica em um local remoto, cujo clima imprevisível e temperado pode ser pouco convidativo para quem quer “apenas” uma vaga de emprego). Para os campings “públicos”, a reserva é gratuita – no entanto, eles oferecem zero conforto: não há água encanada, o banheiro é “um buraco no chão dentro de uma casinha” e banho, só com lencinho umedecido.

Para todos, é necessário reservar com semanas de antecedência. Caso na recepção do parque você não prove que tem as reservas para todas as noites em que permanecer no parque, sua entrada é barrada. Além disso, importante dizer que a entrada para o parque é paga (cerca de R$ 120) e é necessário apresentar uma identificação (RG ou passaporte).

|Como chegar

Com as reservas das acomodações garantidas, fui atrás da passagem. Ou melhor, das passagens. Chegar a Torres del Paine não é uma tarefa simples. O Chile é um país de com área territorial relativamente pequena comparado a outros países da América do Sul, porém é uma “tripinha” para lá de comprida. Saindo de São Paulo capital, fui até Santiago (capital do Chile, voo com duração de 4h05). De lá fiz conexão para Punta Arenas (cidade ao extremo sul do Chile e a mais próxima do parque que disponibiliza aeroporto, cujo voo levou mais 3h20). Em Punta Arenas peguei um ônibus até Puerto Natales (cidade mais próxima do parque – viagem com duração de 3 horas, que fiz com a empresa Bus-Sur). Considerando o tempo de espera das conexões, foram quase 17 horas para chegar a Puerto Natales.

Passagens compradas, fui atrás de uma acomodação para ficar em Puerto Natales, já que pensei ser mais prudente passar um dia inteiro na cidade antes de começar a trilha, efetivamente. Como eu chegaria a Puerto Natales pouco depois da meia-noite, procurei por um hostel próximo à rodoviária para que eu pudesse ir andando e chegar bem rápido. Reservei o Hostal Clarita, uma acomodação familiar a 5 minutos a pé da rodoviária que oferece quartos individuais e compartilhados, camas e travesseiros confortáveis, cômodos muito bem aquecidos (lá é relativamente frio, mesmo durante a primavera/verão) e um café da manhã simples, porém muito gostoso.

Clarita, aliás, é o nome da dona do hostel, uma senhora muito boazinha, um tanto tímida, mas que procura deixar os hóspedes muito confortáveis em sua casa. Reservei a noite de chegada à cidade e a noite seguinte, antes da trilha. Como teria que deixar em algum lugar a mala que não me acompanharia na trilha, aproveitei e reservei a mesma acomodação para a noite em que eu terminaria a trilha.

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

|O que levar

Ufa! Agora “só” faltava pensar em tudo o que eu precisaria levar para a viagem. Além do mochilão (adquiri uma Deuter de 60L, que vinha com uma mochila de ataque de 15L e uma capa de chuva), na Decathlon encontrei de fato tudo o que eu precisava: barraca (Quick Hiker Ultra Light da Quechua, que além de ser muito fácil de montar, é uma das mais leves da categoria), saco de dormir (Forclaz, que suporta até -5°C), isolante para colocar embaixo do saco de dormir, travesseiro inflável, saquinhos de plástico para guardar objetos que não poderiam molhar (celular, por exemplo), kit para cozinhar (panela, copo e talheres – não esqueça de fósforo/isqueiro e de bucha para lavar a louça), garrafinha térmica e outra de plástico com alça na tampa, par de botas (imprescindível que sejam de tecido impermeável, para não comprometer o conforto caso chova durante a trilha), meias de trilha (mais grossas na região do calcanhar) e algumas roupas que eu ainda não tinha.

O que de fato acabei levando para a trilha foram: 4 camisetas, uma calça legging, uma calça de tecido corta-vento, uma blusa de fleece, 4 pares de meia, 4 calcinhas, 2 tops, uma calça segunda-pele para dormir, uma blusa segunda-pele para dormir e uma jaqueta corta-vento impermeável (talvez o item mais importante da mala). Levei também uma toalha, um protetor de pescoço/rosto contra vento, uma touca de lã e uma tiara também de lã para proteger contra o frio. Para finalizar, um par de chinelos e uma frasqueira com todas as miudezas necessárias: xampu, condicionador, pente, escova e pasta de dentes, fio dental, protetor solar, manteiga de cacau, sabonete, absorventes, repelente contra insetos, álcool em gel e sacolinhas plásticas de mercado (úteis para guardar lixo e roupas molhadas), além de remédios para toda e qualquer enfermidade. Para proteger as coisas dentro da mala que não poderiam molhar caso chovesse, utilizei sacos de lixo (aquele pretos usados para grandes volumes).

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

|A mochila

Além disso, precisaria também do fogareiro, do botijãozinho de gás e dos bastões de caminhada, mas como achei que seria complicado levar esse tipo de artigo no avião, decidi alugar tudo em Puerto Natales. Lá é possível encontrar algumas lojas que vendem ou alugam todos os artigos para trilha e acampamento. Aluguei tudo na Erratic Rock, loja que fica no centro da cidade e que oferece uma palestra gratuita sobre o parque todos os dias às 15h. Na mesma loja é possível comprar as passagens de ônibus que vão para o parque (são várias companhias que fazem o trajeto; paguei aproximadamente R$ 50 ida e volta).

E o que eu iria comer? Nesse tipo de viagem não dá obviamente para levar coisas que estraguem com facilidade, que precisem de refrigeração ou que ocupem muito espaço. O segredo é calcular exatamente o que será consumido em cada dia – e cada noite – da trilha. Optei por levar macarrão instantâneo, salame, atum em conserva, barrinhas de cereal e de proteína, bolachas recheadas, suco, chá e café solúveis, manteiga de amendoim e uma barra de chocolate (hoje penso que deveria ter levado umas quatro pelo menos… chocolate salva em momentos de desespero!). A água, como na trilha fui descobrir, é de degelo e por isso vários riachinhos estão presentes durante todo o percurso. Você não precisa ferver ou purificar (levei Clorin mas não usei) e é uma delícia beber aquela água pura, gelada e direto da fonte!

O dia de embarcar finalmente chegara (10 de Novembro) e os voos para Santiago e de lá para Punta Arenas foram tranquilos e agradáveis, assim como a viagem de ônibus até Puerto Natales. Desci na rodoviária, peguei minhas malas e cheguei ao hostel sem nenhum problema. Na rodoviária tem um ponto de wifi grátis que ajuda a quebrar um galho caso você precise acessar a internet para alguma emergência e não tenha levado chip de internet, como foi o meu caso.

No dia seguinte, acordei lá pelas 9h, tomei um bom banho e o café da manhã, comprei em um mercado próximo alguns itens restantes e comecei a organizar o mochilão para a trilha. Esse é o momento em que você tem que decidir o que de fato é necessário levar e o que você pode deixar para trás (para não se tornar um peso desnecessário que você vai ter que carregar). E olha, não é fácil organizar um mochilão! Tem que ter estratégia para deixar cada item no lugar certo, fazer caber “um mundo” e tentar deixar o mochilão o menos pesado possível (mesmo assim o meu estava pesando 15kg no começo da trilha).

À tarde fui ao Erratic Rock Rental buscar os equipamentos alugados e assistir à palestra (ótima para quem nunca foi a Torres del Paine e fundamental para quem nunca acampou) e à noite, depois de um rápido passeio pela cidade (gostaria de ter tido pelo menos mais um dia para conhecer Puerto Natales, pois a cidade é lindinha, envolta por belas montanhas, tranquila de tudo e com muitos cachorros fofos à espera de um carinho) e de um divertido jantar com dois simpáticos brasileiros que conheci no hostel, enfim fui descansar para a aventura do dia seguinte.

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

|A chegada no parque

No dia seguinte saí às 7h da rodoviária de Puerto Natales em direção ao parque, trajeto que leva 2 horas de viagem. Ao chegar na entrada do parque, conhecida por Laguna Amarga, é preciso comprar o ingresso (que custa em torno de R$ 120). Depois disso, como optei por fazer o circuito W no sentido anti-horário, peguei uma van (R$ 20) que sai regularmente da Laguna Amarga e vai até a recepção principal, onde está localizado o primeiro camping em que eu ficaria, o Las Torres.

Depois de apresentar meu passaporte, mostrar as reservas dos campings e assinar um termo de responsabilidade para lá de sério (algumas infrações podem resultar em multas altíssimas, prisão, além da destruição da fauna e flora do parque, como já aconteceu algumas vezes, infelizmente; lá é proibido fumar, fazer fogueiras, acender o fogareiro em áreas proibidas, descartar lixo no ambiente, acampar fora dos campings demarcados, alimentar ou tentar interagir com os animais, entre outras regras; outra responsabilidade do visitante é se manter dentro das demarcações das trilhas, já que o parque não faz resgates e não se responsabiliza pela vida de ninguém), fui ao camping montar a barraca e deixar o mochilão pesado para fazer a primeira “perninha” do W.

Montar a barraca foi extremamente fácil. Primeiro porque eu já tinha treinado algumas vezes em casa e segundo porque o modelo que adquiri é de fato fácil e rápido de colocar de pé (tem apenas um arco e uns 8 pontos de sustentação). Deixei o mochilão lá dentro e parti para a trilha com a mochila de ataque, levando apenas comida, água e a câmera fotográfica.

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

|Circuito W: dia 1

O dia estava lindo. Um céu azul claro cheio de nuvens branquinhas com formatos de bichos e de disco voador, uma brisa seca e gelada acariciava o rosto e balançava os cabelos. O visual impressiona: montanhas de tirar o fôlego, algumas verdinhas, outras de rochas de um belo cinza claro e outras com o topo salpicado pela neve branquinha. Árvores e flores de cores tão vivas que você se sente em uma história de gibi da Turma da Mônica. E o cheiro daquele lugar? Um misto de grama recém cortada, terra depois que chove, pólen doce de flores silvestres e pelo de animais selvagens. Parece poesia, mas é real.

A trilha até o mirante em que é possível observar as torres, cartão-postal do parque, tem 10,5 km de extensão e uma pessoa em condições físicas medianas leva aproximadamente 4,5h para percorrer. A ida é cansativa: subida, subida e mais subida. A parte mais difícil é também a derradeira, com trechos extremamente íngremes e cheios de enormes pedregulhos que me renderam uma queda digna de filmes de comédia, com direito a dois joelhos roxos e esfolados.

Você sai para a trilha de blusa e a termina de camiseta, pois mesmo com a baixa temperatura do lugar e o vento gelado, você sua sem parar. Os bosques daquela montanha têm muitas árvores altas e de tronco fino, que dão a impressão de formarem uma cerca de gravetos vivos vazados por alguns pontos em que a luz do sol brilha e revela os detalhes do lugar. Ao olhar para o caminho que você vai deixando para trás o visual é igualmente incrível: um mar de montanhas verdes e um pedaço do enorme lago azul-turquesa chamado Nordenskjöld dão a impressão de que você está em algum cenário dos filmes do Senhor dos Anéis. É de tirar o fôlego.

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

E cheguei às torres, finalmente. E vou falar, elas fazem jus à fama: são formadas por rochas cinza claro, lisas e cada uma com um contorno diferente. O lago abaixo delas é de um azul claro, como se fosse tinta guache azul misturada com gesso branco. Até olhando essa composição ao vivo parece que é de mentira, de tão magnífica. Literalmente sofrer para chegar ali vale toda a pena. Sentei-me em um ponto mais reservado e observei em silêncio aquela obra tão perfeita criada pela natureza. Há tantas coisas belas no mundo para observar e se maravilhar e a maioria de nós desperdiça anos em frente de uma tela artificial, sentado em uma cadeira, aprisionado em um escritório (ou nas próprias limitações de sua mente). Temos contas a pagar e obrigações a cumprir, é verdade. Mas o que eu quero dizer é que a vida é muito mais do que isso. E que, se você parar para pensar, as melhores memórias vêm do inesperado que só algo fora da rotina pode trazer.

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

Já com frio por estar parada, decidi que era hora de voltar, afinal, mais 4,5h de trilha me esperavam. Desci em um ritmo constante mas sem pressa, apreciando a vista e prestando atenção para não tropeçar e possivelmente me esborrachar no chão. Enfim cheguei no camping, por volta das 18h30. Tomei um banho quentinho e fiz minha primeira refeição quente (macarrão instantâneo e atum) e preparei um chá, que tomei dentro da barraca, mais tarde. Pelo fato de Torres del Paine estar localizado no extremo sul do Chile e ser primavera, só escurece de vez às 22h. É preciso ficar esperto para não enrolar demais e acabar dormindo muito tarde. Como fui sozinha e estava exausta, mal terminei de comer e já fui me aprontar para dormir. A noite estava gelada (uma temperatura próxima dos 3ºC), mas dormi quentinha a noite toda. Dormi sem medo, não tive pesadelos e, sem as distrações da internet, peguei no sono quase que imediatamente.

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

|Circuito W: dia 2

Segundo dia no parque. Acordo levemente desorientada. Não levanto prontamente e fico um tempo planejando mentalmente sobre o que faria na sequência: me trocar, ir ao banheiro, tomar café da manhã, desmontar a barraca, organizar o mochilão e enfim partir para a próxima trilha. Inicio a trilha às 10h e sei que embora a distância seja menor do que os 21km do dia anterior, desta vez percorrerei o caminho todo carregando 15kg nas costas. Eu sabia que seria difícil, mas não imaginava que seria o dia mais extenuante de todos. De acordo com o mapa, eram 7h até o próximo camping que eu havia reservado e desta vez não teria uma ida e volta, seria uma trilha contínua de quase 15km.

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

Nas primeiras duas horas eu já estava sem fôlego, suando em bicas e muito cansada por carregar todo aquele peso. Sentei à beira de um riachinho para beber água, comer uma barrinha de cereal e retomar o fôlego. Um grupo de visitantes passou por mim. Depois de um minuto, um deles voltou (um moço com feições indígenas, com pele parda e cabelos longos e pretos), apontou para a mochilão que eu carregava e perguntou em inglês se eu precisava de ajuda. Sem entender muito bem o que ele quis dizer com “ajuda”, falei que não tinha entendido. Ele pediu para eu tirar a mochila das costas e ajustou as alças dos ombros – só então entendi que não tinha regulado de acordo com a minha altura (erro grave de principiante) – e disse que a partir de agora eu caminharia com mais facilidade. Eu o agradeci umas 3 vezes e ele então foi embora. Que engraçado e verdadeiro sentir tamanha gratidão por um completo estranho!

O caminho restante não foi tão sofrido com o mochilão agora de fato corretamente adaptado ao meu corpo, mas ainda assim foi exaustivo, tanto que as 7h horas planejadas para fazer o percurso se transformaram em 9h. Fiz várias pausas durante o caminho e aproveitei cada uma delas para apreciar a vista e o momento. As flores de um vermelho vivo que margeavam a trilha, a superfície azul esverdeada do gigantesco e gelado lago Nordenskjöld, os montes que me faziam penar nas subidas e comemorar as descidas, as abelhas do tamanho de um besouro que zuniam de flor em flor. Pensei em tanta coisa, do mais bobo ao mais complexo. Poucas perguntas e muitas ideias.

Enfim cheguei ao Italiano, um dos campings públicos gerenciados pelo governo. A exaustão era tamanha que por pouco não chorei de emoção. Já eram 19h e meus músculos gritavam de dor por passarem o dia em movimento e suportando um peso muito maior do que estavam acostumados. Procurei por um lugar bom para montar a barraca e larguei o mochilão na terra. Que alívio! Até meus movimentos estavam diferentes quando por fim consegui me movimentar livremente. A sensação era de que ele incorporara o “gingado” do andar com a mala, mesmo sem ela.

Nesta noite, porém, o banho foi feito à base de lencinho umedecido, já que o camping não disponibiliza banheiro e muito menos chuveiro. Existem apenas algumas casinhas de madeira com literalmente um buraco no chão para as necessidades fisiológicas básicas de um ser humano. Me limpei como pude e preparei basicamente a mesma refeição da noite anterior, com a diferença que em vez do chá bebi quase 1 litro de suco de uma só vez (dada a sede que parecia não ter fim).

Adormeci antes mesmo de notar. Um sono tranquilo que só foi interrompido quando uma parte da barraca caiu na minha cara durante a noite. Uma ventania tão forte tivera início que uma das hastes de apoio da minha barraca se soltou e uma parte da lona ficou sem sustentação. Acordei assustada, sem entender direito o que estava acontecendo, mas logo que me dei conta, não tive coragem de sair da barraca: o vento gélido e a escuridão da floresta fizeram com que eu apenas mudasse de posição e voltasse a dormir (rezando para outras partes da barraca não se soltarem também). Peguei no sono em um piscar de olhos.

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

Abro os olhos antes do despertador tocar. Embora esteja claro, diferente das manhãs anteriores o sol está encoberto e a ventania gélida da madrugada, um pouco mais amena, ainda chacoalha a copa das árvores em um ritmo constante. Lembro-me de ter lido em algum site de viagens que “na Patagônia é possível experienciar as 4 estações climáticas em apenas um dia”. Sinto um rápido receio pelo dia que estava por vir, mas logo o pensamento se desanuviava da minha mente e eu seguia em frente desmontando a barraca e arrumando o mochilão para a próxima trilha.

|Circuito W: dia 3

No camping Italiano é possível deixar o mochilão em uma espécie de varanda, assim você percorre o Vale Francês e não tem que carregar muito peso. Não há armários ou como garantir que ninguém vai mexer nas suas coisas enquanto você estiver caminhando, você tem que confiar, apenas. Um pouco receosa, deixei o mochilão em um cantinho da varanda e resolvi seguir em frente sem deixar a preocupação tomar conta dos meus pensamentos.

O Vale Francês é o caminho que você percorre para chegar até o Mirante Britânico, um dos cumes em que é possível ter uma visão magnífica de várias montanhas cobertas pela neve que nunca derrete. São três horas de subida em uma trilha praticamente toda dentro da mata fechada. Conforme eu subia em um ritmo constante, diferente dos dias anteriores não senti calor.

 

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Você já esteve em uma tempestade de neve? ☃️ . Como no Brasil não é comum nevar, essa não é uma experiência que os brasileiros costumam ter. Eu mesma nunca tinha estado em uma tempestade de neve, só tinha visto montinhos no chão algumas vezes. . É uma sensação estranha estar debaixo de floquinhos gelados e leves ao mesmo tempo. E, sim, algo belíssimo de se ver. Pode ser brega, mas eu me emocionei! ☺️ . Em Torres del Paine, no Chile, você nunca sabe ao certo qual será a previsão do tempo. Pode fazer sol e depois de uns minutos nevar; pode estar aquele calor e na sequência um frio de gelar até os ossos. . E talvez seja esse tipo de magia que nós trilheiros aventureiros procuramos: lidar com o inesperado poder que a natureza tem de mudar e se reconstruir a todo momento. ☀️🌪🔥☔️🌬

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A sensação de frio aumentava conforme os minutos passavam e nas poucas áreas abertas o vento castigava meu corpo, minhas mãos e principalmente meu rosto. A essa altura minha boca já estava bem machucada pelo frio, mesmo usando protetor labial. De repente, olhando mais para frente, vi alguns pontos caindo do céu e pensei “que chuva estranha!”. Mas não era chuva. Estava nevando!!! Até então eu só tinha visto neve no chão, nunca tinha estado em uma tempestade de neve. Ao mesmo tempo em que eu congelava e que minhas mãos endureciam, ficava mais maravilhada com aquele lugar. Os flocos de neve caindo e, como os músicos em uma orquestra, sendo conduzidos com destreza e determinação pelo vento, foi um verdadeiro espetáculo.

E enfim o tão esperado Mirante Britânico! Mas… cadê as montanhas? Devido à tempestade de neve a visibilidade era mínima e não consegui enxergar muito além da própria montanha em que eu estava. Interpretei como um convite da natureza para que eu volte um dia.

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

O retorno da trilha até a base do camping foi relativamente fácil e sem grandes surpresas. Meu mochilão estava do jeitinho que eu o tinha deixado. Fiz um lanche rápido e segui em direção ao próximo camping, o Paine Grande. O caminho até lá passa por vários riachinhos e pequenos lagos, por isso é cheio de pontes de madeira e exige um cuidado maior para não pisar em falso ou enganchar o bastão de caminhada e levar um tombo. São pequenas subidas e descidas em um percurso de aproximadamente 2,5 horas, que fiz em 3 carregando o mochilão e suportando um vento terrível. Minhas pernas e costas estavam exaustas e confesso que quase cheguei ao meu limite físico. Chegar em Paine Grande após ter percorrido quase 18 km em condições climáticas duríssimas foi um misto de sofrimento e alívio.

A estrutura de Paine Grande é boa, mas pelo fato do camping estar localizado em frente ao grande lago Sköttsberg, os ventos fortes são uma constante ali. Foi a noite mais gélida e difícil de toda a trilha. O vento não deu trégua e sacudiu a barraca a noite inteira, me fazendo questionar se não teria sido uma boa ideia ter ficado pelo menos essa noite no refúgio, em uma cama quentinha e protegida. Dei graças a Deus quando amanheceu.

Tomei um chá para esquentar o corpo e partir para a próxima trilha. A esta altura, creio que pela desidratação e exercício físico intenso da somatória dos dias, meu xixi estava bem escuro, da cor de chá mate forte. Aquilo me assustou um pouco, mas aquele era o último dia, eu tinha uma longa trilha pela frente e no começo da noite eu estaria me despedindo do parque. Com as coisas novamente empacotadas, parti em direção à geleira Grey.

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

|Circuito W: final

A ida, com aproximadamente 11 km, é de uma beleza tão rica de detalhes que só a Patagônia pode oferecer. De um lado estão as montanhas majestosas, que dão a sensação de que você está sendo observado o tempo todo. Várias vezes olhei para cima para ver se não havia um puma à espreita (rindo, porém de nervoso). Do outro lado há o lago Grey, de um azul perolado com pequenos blocos de gelo flutuantes que se soltaram da geleira.

No caminho pude ver muitas árvores retorcidas e carbonizadas, devido ao incêndio catastrófico que acometeu o parque há alguns anos. Um visitante teve a arrogância de burlar as regras e acampar fora das áreas de camping. Ao acender seu fogareiro, o vento espalhou o fogo, que saiu de controle em instantes e destruiu uma área considerável que abrigava tantas espécies da fauna e da flora da região.

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

A trilha passa por mirantes naturais em que é possível ter uma visão panorâmica do lado Grey e ver a geleira ao fundo. O vento estava tão forte no dia que mesmo curvando ligeiramente o corpo para frente era impossível cair! Tamanha era essa força (e a sensação térmica baixíssima) que a ida até a geleira foi extremamente difícil. Estando contra o sentido do vento e carregando apenas a mochila de ataque e os bastões de caminhada, levei aproximadamente 3,5 horas para enfim chegar à área de camping Grey, ponto em que é possível chegar a uma distância considerável da geleira para observá-la bem (ao fazer o circuito “O” é possível chegar ainda mais perto).

O vento lá tem uma força assustadora e é tão frio que parece gelar até os ossos. Você observa por alguns minutos aquela obra de arte feita de gelo e já quer ir embora, de tão insuportável a sensação de congelamento e dor. Fico imaginando como deve ser durante o ápice do inverno!

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

A trilha de volta, por outro lado, foi bem mais tranquila apesar do vento e do frio persistirem. Por estar na mesma direção do vento é possível aproveitar mais o passeio para observar os detalhes do caminho. Vi outra abelha do tamanho de um besouro e até um pica-pau preto da cabeça aos pés cutucando animadamente uma árvore caída. O retorno até Paine Grande foi também o momento em que percebi que a aventura estava chegando ao fim. É uma mistura de felicidade e tristeza. Vencer um desafio é também ver o seu fim. É ter vivido grandes momentos, mas saber que agora eles estão apenas na memória.

No camping coloquei uma roupa mais quente e esperei pelo catamarã (barco que atravessa o lago Sköttsberg até Pudeto, margem em que os visitantes descem e sobem nos ônibus que os levarão até Puerto Natales, com uma parada rápida em Laguna Amarga). O valor do ingresso do catamarã é de aproximadamente R$ 130 e só pode ser comprado na hora e pago com dinheiro vivo, em pesos chilenos. O trajeto dura 30 minutos e são feitas de 3 a 4 viagens por dia, apenas. Por isso é necessário ficar muito atento aos horários de saída e à fila de visitantes que se forma à beira do lago: caso o número de passageiros atinja o limite você corre o risco de ter que esperar até o dia seguinte para ir embora.

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

Já no ônibus em direção a Puerto Natales a sensação era de que eu tinha sido esmagada por um trator. Os músculos doíam, os lábios ardiam, o rosto e as pálpebras estavam inchados e a secura na pele incomodava. Mas a mente estava leve como uma pluma. Todo e qualquer problema que eu ainda não tivera resolvido até então já não tinha a mesma importância. Pode ser que fosse apenas a estafa física que me tenha amortecido e deixado aquela sensação, mas para mim significou muito mais: a de completar uma tarefa árdua e desconhecida, contando apenas com a minha própria coragem e persistência.

Acredito que uma viagem assim muda as pessoas. Volto mais forte, mais cheia de vida e com mais certeza de que a vida vale a pena. Há muita gente boa no mundo disposta a te ajudar. A beleza não está apenas no que você acredita que vai encontrar pelo caminho, mas nas surpresas. Nem sempre é apenas pelo sol que vale levantar da cama, a tempestade também é o recado da natureza de que tudo pode ser belo, só depende do seu olhar.

Me despeço de Torres del Paine com energia, amor e a certeza de que eu volto. Se sozinha ou acompanhada eu não sei, mas eu volto!

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

(Foto: Heidi Moriyama @sobrenomemochileira)

 

 

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